Conversas com ritmo

Por cortesia da organização, aqui fica uma parte da discussão tida:

Uma pergunta em «Conversa com Ritmo»

«Teremos feito tudo tão mal até aqui que mereçamos ser castigados?»

Nos passados dias 10 e 11, realizou-se em Tróia o «Arritmias 2012», a reunião anual promovida pela Associação Portuguesa de Arritmologia, Pacing e Electrofisiologia (APAPE). Da sessão de abertura, presidida pelo secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Dr. Fernando Leal da Costa, constou uma «Conversa com Ritmo», dedicada à problemática dos custos em arritmologia, moderada pelo presidente daquela associação, Dr. Carlos Morais.

A conversa, uma Iniciativa da Associação Bate Bate Coração, com o apoio da APAPE e do Instituto Português do Ritmo Cardíaco, juntou o Dr. Adalberto Campos Fernandes, professor convidado da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa e presidente do Conselho de Administração do Hospital de Cascais; e o Prof. Pedro Pita Barros, economista, catedrático da Universidade Nova de Lisboa.

O Dr. Adalberto Campos Fernandes considerou o acordo com a troika «um grande incentivo para atacar algumas das doenças de natureza crónica de que padece o SNS», hoje não mantém o mesmo nível de optimismo: «Não estamos a aplicar rigorosamente na área da Saúde aquilo com que nos comprometemos. A sensação que temos é que estamos a ir à gordura das pessoas e não à gordura da estrutura. Já todos percebemos que há ineficiência, desperdício e má gestão, e era importante que o poder também assumisse que grande parte da dívida dos hospitais a fornecedores é dívida do Ministério da Saúde aos hospitais».

O gestor interrogou-se sobre se «Teremos feito tudo tão mal até aqui que mereçamos ser castigados?», lembrando que «quando olhamos para o relativo sucesso da poupança dos últimos dois anos, encontramos a intervenção muito agressiva nos medicamentos e os cortes de salários na função pública. Com o orçamento aprovado em 2011 e com o actual não temos nenhuma dúvida de que estamos com racionamento no acesso aos cuidados de saúde. Não vale a pena iludir a questão. Quem gere os hospitais é o Ministério das Finanças».

(…)

O Dr. Adalberto Campos Fernandes defendeu que «teremos de ser implacáveis com a má gestão, mas também temos de reconhecer a boa gestão, porque, caso contrário, ninguém vai querer gerir hospitais nestas condições, nem dirigir um serviço. E acabemos de uma vez por todas com a questão do desperdício; teria sido possível convencer a troika de que centralizar os hospitais velhos do casco da cidade num único hospital é uma medida de racionalidade económica muito elevada. Os hospitais de Lisboa custam por ano 48 milhões a mais, só por estarem dispersos por conventos e edifícios centenários».

O gestor nada tem contra a ideia de um Estado mais pequeno, mais magro, mais eficiente; «preocupa-me, sim, a destruição, com consequências provavelmente irreversíveis, dos activos humanos em áreas tão sensíveis como a da Saúde. Ao empurrar para fora do sistema público todas as pessoas que podiam desenvolver nele uma carreira, estou a desestruturar de forma definitiva o melhor princípio de uma Medicina nacional de base científica que foi construída, a partir dos anos 60, por Miller Guerra, estou a favorecer uma Medicina sem nenhum incentivo ao desenvolvimento profissional e à inovação».

 
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recessão e saúde

(post gémeo com momentos económicos)

Ainda a propósito da conferência da CNECV, um dos comentários feitos manifestava preocupação com a recessão económica e o seu efeito sobre o estado de saúde, citando como referência uma recente análise sobre a crise grega e a taxa de suicídios.

A este respeito, da relação entre recessão e o estado de saúde da população, há que ter algum cuidado nas relações e associações que existem e as que presumimos que existem. Uma regularidade detectada em vários trabalhos é a de que em termos agregados, as recessões económicas não estão associadas com uma deterioração dos indicadores de saúde da população. Este resultado pode parecer paradoxal, e merece por isso ser escrutinado.

Só para ser mais preciso, do estudo de Gerdtham e Rhum, 2006: “a 1% point fall in the national unemployment rate is estimated to raise total mortality by 0.4% and deaths due to cardiovascular diseases, influenza/ pneumonia, liver ailments, and vehicle accidents by 0.4, 1.1, 1.8, and 1.9%, respectively. These patterns are similar to, although generally somewhat weaker than, those obtained in Ruhm‘s (2000) study of the United States using comparable methods and data. ”

O que se passa então? primeiro, o tipo de causas de morte altera-se das recessões para os períodos de maior crescimento económico conjuntural – é importante distinguir as flutuações de curto e médio prazo, o chamado ciclo económico, das tendências gerais de crescimento. Como ficou patente no caso da Grécia, à semelhança de outros países e períodos, a crise económica gera um aumento de suicídios. Mas a crise económica também altera hábitos de transporte, de alimentação e até de exercício fisico (mesmo que não seja desporto). Como a mortalidade em acidentes de viação e em acidentes de trabalho é uma das fontes de anos de vida potencial perdidos, a redução da circulação automóvel reduz os acidentes e melhora os indicadores gerais de saúde da população.

Ou seja, se há um aumento de mortalidade associada com suicídios por um lado há uma redução de mortalidade associada com outras causas.

Dois comentários adicionais – este argumento é um argumento de base populacional. Do ponto de vista individual, a recessão leva a desemprego, e os desempregados têm em média pior estado de saúde do que outras pessoas de características similares mas empregadas. Há um custo de saúde, em termos individuais, de se estar desempregado.  Mas a nível agregado esse efeito aparenta ser compensado por outros aspectos de alteração de comportamento que se traduzem menores mortalidade. Deve ser dada mais atenção aos aspectos de saúde mental, por exemplo.

Segundo, este é um argumento de ciclo económico, de flutuações grandes à volta de uma tendência de crescimento económica. É uma relação diferente na sua natureza de no longo prazo o crescimento económico fornecer condições para um melhor estado de saúde da população, e de cada indivíduo dessa população.

A implicação desta evidência internacional é a de ser mais importante pensar nas intervenções da política de saúde, dados os recursos disponíveis, do que pensar que haverá uma pressão muito elevada sobre os recursos a utilizar apenas por causa da crise. Estejamos atentos à crise, mas não a transformemos no bode expiatório da despesa em saúde.

Vejamos o que temos de evidência nacional.

Como primeiro passo, construa-se um índice de conjuntura. Utilizei uma versão simples – fazer os desvios à tendência linear de evolução das taxas de crescimento real do PIB desde 1980. A tendência linear é ligeiramente negativa, e de alguma forma reflecte o menor potencial de crescimento da economia. A diferença entre a taxa de crescimento observada e o valor dessa tendência é a medida de conjuntura – terá valores positivos em épocas de expansão económica, e valore negativos em tempos de recessão.

Usando alguns gráficos simples tem-se como principais regularidades

a) a mortalidade bruta não tem relação com a fase de ciclo económico. O mesmo sucede com o indicador “anos de vida potenciais perdidos” (que mede o tempo de vida perdido prematuramente).

b) a taxa de suicídios está negativamente relacionada com a fase de ciclo económico – como sucede noutros países, a taxa de suicídio aumenta em períodos de recessão;

c) o número de acidentes de viação, a mortalidade e o número de feridos em acidentes de viação tem uma relação positiva com o ciclo económico – aumentam em momentos de expansão.

Os gráficos encontram-se no final do texto.

Os gráficos não contemplam outros factores que possam ser relevantes. Admitindo que um efeito de tendência permite captar esses outros factores de forma razoável, uma regressão linear simples de cada um dos indicadores acima na evolução do tempo e no indicador de conjuntura económica permite uma primeira abordagem aos efeitos, que vai para além da mera inspecção gráfica.

Os quadros referentes a essas regressões, usando todas as observações anuais disponíveis desde 1980, corroboram as conclusões da análise gráfica. (nota: alargar o período temporal não afecta as conclusões; para os anos de vida potenciais perdidos há observações em falta nos últimos 5 anos).

O que se pode então retirar?

Que os tempos de recessão trazem exigências diferentes ao Serviço Nacional de Saúde, sobretudo no campo da saúde mental – embora se tenha usado aqui o indicador de taxa de suicídio, é de admitir que o mesmo se passará com as depressões, por exemplo -, mas sem a sobrecarga agregada ser claramente diferente. Isto porque noutras áreas diminui a pressão sobre o sistema de saúde – por exemplo, os acidentes de viação reduzem-se, reduz-se a mortalidade com eles associada bem como o número de feridos, que são tipicamente tratados no Serviço Nacional de Saúde.

Ou seja, Portugal não parece ser diferente dos outros países, apesar de esta ser ainda evidência preliminar e que deverá ser aprofundada. Os tempos de crise não são necessariamente tempos de mais despesa ou de mais pressão sobre os serviços de saúde, são certamente tempos de uma pressão de natureza diferente.

Em termos de percepções dos profissionais e da população, a pressão acrescida nalgumas áreas é sempre mais visível e saliente que a redução de pressão noutras. Por isso mesmo, as análises devem ir para além das percepções e do “achismo”.

Por fim, deve-se ter em conta que não se pode daqui inferir relações entre custos de saúde no Serviço Nacional de Saúde e momentos de recessão económica, uma vez que as despesas no SNS dependem também da oferta de serviços que é feita, que tende a ser menor ou mais preocupada com os efeitos de despesa em tempos de recessão.

Referências

Rhum, Christopher J. “Are Recessions Good for Your Health?” Quarterly Journal of Economics 115(2): 617–50, May 2000.

Rhum, Christopher J. “A Healthy Economy Can Break Your Heart,” Demography 44(4): 829–48, November 2007.

Gerdtham, Ulf G., and Christopher J. Rhum. “Deaths Rise in Good Economic Times: Evidence From the OECD,” Economics and Human Biology 4(3): 298–316, December 2006.

Gráficos e Análise de regressão

Relação entre acidentes de viação e índice de conjuntura (valor>0=expansão): positiva

Relação entre taxa de suicídio e índice de conjuntura (valor>0=expansão): negativa

Relação entre mortalidade bruta e índice de conjuntura (valor>0=expansão): sem sentido definido.

Relação entre mortos em acidentes de viação e indicador de conjuntura (1980-2010): positiva, depois de descontada a tendência geral de redução da mortalidade em acidentes de viação.

relação entre feridos em acidentes de viação e indicador de conjuntura (1980-2010): positiva, depois de descontada a tendência geral de crescimento do número de feridos em acidentes de viação (embora muito ténue e praticamente estável em sentido estatístico).

relação entre número de  acidentes de viação e indicador de conjuntura (1980-2010): positiva, depois de descontada a tendência geral de aumento do número de acidentes de viação (embora muito ténue e praticamente estável em sentido estatístico).

relação entre a taxa de suicídio e  indicador de conjuntura (1980-2010): negativa, depois de descontada a tendência geral de redução da taxa de suicídio.

relação entre os anos de vida potenciais perdidos e o  indicador de conjuntura (1980-2010): não é diferente de zero – ausência de relação, depois de descontada a tendência geral de redução dos anos de vida potenciais perdidos.

relação entre a taxa de mortalidade bruta e  indicador de conjuntura (1980-2010): não é diferente de zero – ausência de relação, depois de descontada a tendência geral de ligeiro crescimento da taxa de mortalidade bruta (no limite da significância estatística).