virus, frio e mortalidade

nas últimas semanas ganhou grande destaque uma anormal mortalidade, que foi desde logo associada por alguns comentadores à subida das taxas moderadoras, que teriam sido barreira decisiva para o acesso a cuidados de saúde; acrescentam nalguns casos que o recurso às urgências hospitalares se reduziu, confirmando os efeitos apontados às taxas moderadoras.

Tenho alguma dificuldade em seguir esses argumentos se não lhes for dada alguma substância estatística. Não consegui encontrar informação sobre quem deixou de ir às urgências, mas quando se fala que há um excesso de recurso à urgência hospitalar, uma sua redução pode ser um bom sinal, ou um mau sinal, consoante os motivos. Antes de se tomarem visões definitivas, talvez fosse útil ter mais conhecimento.

Mais interessante é a discussão da mortalidade, porque há informação aqui, dada pelo INSA, e a qual parece passar despercebida a quem comenta de rajada.

Especialmente útil é a página 8 do Boletim de Vigilância Epidemiológica, que reproduzo abaixo: mostra que em 2012 tal como em 2009, o A(H3) provoca picos de mortalidade anormal, acima do intervalo de confiança da linha base. O pico em 2012 parece ter sido mais acentuado, mas também caiu mais rapidamente. Em acumulado mensal sobre dois meses, não é claro que seja muito diferente, uma vez que em 2009 caiu menos rapidamente. Por outro lado, o aumento das taxas moderadoras foi um efeito permanente desde o início do ano, e por si só não provocaria um pico de mortalidade – a existir uma relação de causalidade entre taxas moderadoras e aumento da mortalidade esse deveria ser um efeito mais permanente e não restrito a umas semanas.

Em 2007 o surto do A(H3) foi menor e também gerou um desvio extraordinário menor do que em 2009 e em 2012.

Não vejo por isso que seja óbvia ou directa a ligação entre as taxas moderadoras e o pico de mortalidade observado.

De qualquer modo, como a mortalidade parece estar a descer do seu pico, quando voltar ao ponto de normalidade, espero que os mesmos comentadores enderecem os parabéns ao Ministério da Saúde por ter conseguido actuar de forma a ultrapassar os problemas criados pelas taxas moderadoras. Só assim serão coerentes com as afirmações feitas de que o pico de mortalidade se deveu às taxas moderadoras. Em alternativa, poderão reconhecer que fizeram afirmações apressadas.

Por fim, é de reconhecer o trabalho de informação que é prestado pelo INSA, e que deverá ser lido mais vezes.

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